Quando a vida fica preenchida demais com as necessidades, é bem raro termos um momento maior de pausa, um respiro prolongado onde conseguimos, de fato, entender, enxergar e reorganizar todo o caos que acompanha a vida adulta.
Vivemos exaustos, sonhando com uma pausa que cada vez se faz mais distante. Imaginamos o que vamos fazer quando ela chegar, quando a sorte bater e, sei lá, recebermos duas semanas ou mais para aliviar o corpo, a alma, a mente.
Pra mim, esse momento veio e com o nome de recesso. Com isso, fiz um pacto comigo mesma: viveria esse momento de verdade.
Um período proibido de trabalhar, abrir o computador, colocar qualquer ideia no papel e, principalmente, tentar organizar a vida, procurar outro emprego ou qualquer outra coisa antes dessa pausa, de fato, acabar. E confesso que, na prática, fiquei um pouco perdida.
Eu não sei quando eu passei a me dedicar tanto assim, mas essa sensação me fez perceber que não quero mais um ano em que eu trabalhe tanto e perceba, só no fim de todos os meses, que fui pouco à praia, vi pouco meus amigos ou fui incapaz de cuidar da minha saúde como deveria.
Há 10 anos atrás, desacelerar não seria tão difícil pra mim, mas hoje se tornou quase uma missão impossível. Há 10 anos atrás, eu queria tudo o que eu tenho hoje e não tinha ideia de como chegaria aqui. Meu caminho era repleto de dúvidas, inseguranças, falta de conhecimento e experiência, muito diferente de como é hoje.
Eu me movimentei muito, busquei dedicação total e me coloquei à frente de toda e qualquer situação que me levasse a ser o que precisava para crescer profissionalmente.
Só eu sei toda a ansiedade do mundo que aceitei atravessar, todos os medos e questionamentos internos que moravam em mim e cada situação em que não me permiti desistir para me tornar quem eu queria, mesmo sem saber como.
Quando olho pra trás, vejo que consegui isso e muito mais.
Consegui encontrar meu lugar dentro de mim mesma. Consegui entender e valorizar como meu corpo, minha mente e minhas ideias funcionam e, principalmente, como me tornei firme, inteligente e capacitada. É um sentimento de orgulho, uma vitória que no início parecia apenas profissional, mas que sei que é totalmente pessoal: poder provar o meu valor pra mim mesma.
Mas por que foi tão difícil ter apenas uma pausa? Isso não me desvalorizaria nem me atrasaria em nada. A verdade é que eu acabei tirando o que eu mais gastei energia nesses anos e, sem dramatizar o meu processo de descanso, foi difícil pra caralho. Nos primeiros dias, me vi diversas vezes no celular, como uma viciada em redes sociais, tentando ocupar a mente e me distrair do que eu gostaria de fazer. Foi difícil.
Sem perceber, me preenchi demais.
Não tenho rotina de exercícios, não tenho outros hobbies além de criar, não tinha ingredientes em casa pra cozinhar.
Pequenas grandes coisas que fazem a vida ser muito mais do que fazemos.
Pequenas grandes coisas que fortalecem o que somos.
Tive esse tempo incrível de descanso e, no começo, me senti perdida.
Perdida por não ter contato com “o nada” nos últimos meses de 2025.
Perdida, mas não infeliz. Apenas perdida.
Como se esse fim de ano tivesse sido um alerta pra mim. Do tipo, desacelera um pouco, aproveita um pouco mais quem você é fora do trabalho.
Sei que foi um baita esforço o que construí nos últimos 10 anos, mas talvez agora eu possa pegar um pouco mais leve, aproveitar um pouco mais os frutos que toda essa bagagem trouxe.
Ainda está difícil. O que era uma tarefa para o recesso se tornou um objetivo de vida. Espero, de coração, que eu aprenda a desacelerar a vida, me preencher com o que sou e não apenas com o que faço, e aceitar que não preciso ter a pressa que tinha, que o crescimento, a partir de agora, pode e deve acompanhar um ritmo mais leve.
A Carol de 10 anos atrás era bem agitada, tinha muita energia e sede pra descobrir o que eu me tornaria. Hoje, eu preciso acalmar um pouco. Sinto dores nas costas, preciso tomar remédios, comer comidas mais saudáveis e diminuir o estresse. Além de cuidar de mim, da casa, das meninas, do meu amor e dos sonhos pessoais.
É impossível manter o mesmo ritmo, e está tudo bem desacelerar.
Não preciso ter medo de perder nada. Está tudo aqui, em mim.

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